Débora Injah e a pré-história do futuro

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Débora Injah e a pré-história do futuro

Debora Injah

A arte de Débora Injah consegue ser ao mesmo tempo panfletária e despretensiosa.

 Do ativismo político ao resgate do sagrado, suas obras celebram a liberdade inegociável da criação artística, recusando tornar-se mais acessível ao gosto comum- da mesma forma que não se submete as cartilhas ideológicas pré-moldadas que tanto se proliferam no cenário cultural da atualidade.

Sim, estamos vivendo tempos normativos, onde ideologias avançam disfarçadas de insurreição, e que não passam de mais outra faceta da velha forma de poder: sectária, hierárquica e hegemonista. Injah dança sobre os escombros dessas ideologias obsoletas, enfrentando as questões cruciais do novo tempo de forma absolutamente genuína, orgânica e  diversa.

 TRAJETÓRIA-Com quase 10 anos de produção, Injah marcou seu ponto no cenário artístico com o trabalho “Bonecas” de 2005. Feita com absorventes internos “vestidos” de personagens femininos, inaugurou assim seu trabalho com a tematica da mulher. Debora criou em seguida o stencil/adesivo “A Gostosa” de 2006, que foi o princípio do seu trabalho nas ruas, somando-se aos anos em que trabalhou com grupos feministas de arte urbana e neles interagiu com outras mulheres de realidades e criações diferentes.  Foi aprovada em seu primeiro edital de arte, “Mostra Livre de Artes Universitárias” no Sesc em Curitiba, expôs  na galeria Colorida em Portugal e recentemente abriu sua primeira exposição individual no café e galeria Glicerina no Rio de Janeiro, aonde mora.

 

débora injah

BRASÍLIA & RIO DE JANEIRO- Sobre a diferença entre o Rio e Brasília (onde nasceu) comenta: “Já estou aqui há 10 anos. Para mim o grande contraste é que fazem dois anos que minha carteira de motorista venceu e eu nem me esquentei em renova-la, no Rio vivo muito bem sem carro e existe uma interação muito forte com a rua, pessoas na rua o tempo todo, enquanto Brasília é uma cidade para se andar de carro, e as distancias e os descampados dificultam a interação das pessoas. Lembro quando adolescente em Brasília gostava de ir para a rodoviária e circular por ali para ver e estar no meio das pessoas”.

 

A austríaca Elke Krystufek é uma das artistas favoritas de Injah

A austríaca Elke Krystufek é uma das artistas favoritas de Injah

INFLUÊNCIAS- Entre seus artistas favoritos estão o pintor holandês Vicent Van Gogh, o grafiteiro norte-americano Keith Harring e os pintores austríacos Egon Schiele e Elke Krystufek. Curiosamente, os dois últimos possuem uma conexão além da geográfica : ambos foram acusados de atentado ao pudor pelos críticos (quase 100 anos os separam um do outro), ambos possuem o corpo como temática fundamental dos desenhos e pinturas. Mas não o corpo idealizado pela cultura classicista, romântica ou moderna.

O corpo REAL, sexual, visceral, libertário e de certa forma “feio” posto que não se ocupa em maquiar suas imperfeições ou atenuar seus contrastes. (bom lembrar que disseram de Renoir quase o mesmo, que suas modelos eram como “corpos em decomposição cadavérica” simplesmente por recusar a polidez pictórica tão estimada das pinturas de Ingres e Bouguereau ).

injah

LIBERTE A SUA ENERGIA! É na figura feminina que a arte de Debora Injah se manifesta. Coloridas, seios pontiagudos como adagas, corpo dançante e sereno, de cabelos azuis ao vento e chakras luminosos despertos pela meditação. Mulheres voadoras, maconheiras, vadias, sereias, bravas guerreiras e divertidas bailarinas. Mensageiras do futuro, signos que se revelam inseridos no cotidiano caótico da metrópole solar.

A pintura de Débora Injah proclama a emancipação das mulheres, o fim do falso moralismo e a revolução pela arte. Estamos em tempos de mudanças profundas. Nosso mundo ainda chafurda nas primitivas vibrações dos instintos grotescos, da vergonha e do machismo, do medo e das normas. É preciso vencer a culpa, sobrepujar a negatividade, alcançar a plena aceitação dos nossos corpos, evoluindo para uma civilização genuinamente conectada com a felicidade.

A arte de Injah surge como uma arte revolucionária, uma espécie de pré-história do futuro. Suas imagens espalhadas pelas paredes da cidade associam-se aos amuletos neolíticos, guardiões de energias poderosas e mensagens afirmativas da importância das mulheres, redimensionando-as do papel de espectadoras passivas para o de agentes fundamentais da evolução humana.

por Tiago Botelho

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