A visita dos Huichol

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A visita dos Huichol

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Em Novembro de 2014, recebemos no Brasil a visita especial de uma comitiva de xamãs do povo Huichol e do povo Purepéche, ambos localizados no território mexicano, habitantes milenares dos desertos e montanhas daquela região.

O povo Huichol é um grupo étnico indígena do oeste do México central, que viveu durante séculos na Sierra Madre Ocidental. Eles são considerados um dos últimos remanescentes de culturas indígenas fiéis às suas raízes ancestrais. Para a comunidade Huichol, a espiritualidade é uma parte essencial e central em suas vidas. Sua arte orbita em torno de quatro entidades principais: O milho, o veado, o jaguar e a águia.

Como muitos grupos indígenas centro-americanos, os huichol têm tradicionalmente usado o peyote (hikuri) como medicina primordial para a manutenção da saúde e da sabedoria de suas comunidades. Sua rica arte tem uma relação direta com as visões reveladoras proporcionadas pelo uso cerimonial dessa planta de poder.

SOBRE A ARTE HUICHOL

Constituída principalmente por padrões geométricos de miçangas sobre esculturas de papel machê ou madeira, o artesanato huichol tem conquistado reconhecimento como uma das mais impressionantes manifestações artísticas do mundo. As técnicas usadas pelos huichol seguem um mistério, sabe-se apenas que usam cêra de abelha para colar as miçangas na superfície dos objetos, e que usam uma agulha e uma linha repleta de miçangas alinhadas com as cores que irão usar na composição.

Máscara Huichol

A técnica de geometrização e criação dos contrastes, contudo, segue pouco estudada. Eles não desenham antes de colar. O trabalho se dá no plano mental, e de fato podemos perceber pequenas desarmonias matemáticas ao olhar detalhadamente algumas peças, mas que de maneira alguma tira a excelência do resultado final.

Tudo nas peças impressiona. A impecabilidade da técnica manual em colar as miçangas “una a una” aliada a uma noção muito avançada de combinações de cores frias e quentes, intercaladas por linhas simétricas que formam imagens alegóricas de seus animais de poder e mandalas de flores, transforma as peças em verdadeiros amuletos sagrados, ainda que a arte desse povo se estenda para peças de ornamentação vestuária como brincos, colares e pulseiras.

ARTE QUE EMANA CURA

Mais que esculturas, a arte huichol apresenta uma cosmologia profunda traduzida em imagens, uma espécie de alfabeto do espírito. Suas imagens cristalizam o saber de uma ancestralidade que transita pelo mundo visível e invisível, criando emblemas que facilitam nossa compreensão do caminho interior de toda jornada individual. Trata-se de uma arte ligada ao Sol, ao indivíduo e às forças presentes nas dimensões mais elevadas da alma humana, entidades que fundamentam a inteligência e a mobilidade de nossos corpos, transfiguradas em singelas figuras de animais. A visualização cuidadosa de suas peças permite que o espectador olhe para dentro de si mesmo, e alcance revelações sobre forças que até então desconhecia possuir, forças espirituais de otimismo e amor próprio. Uma arte que emana cura.

TÍPICA BANCA DE ARTE HUICHOL

TÍPICA BANCA DE ARTE HUICHOL

RESISTÊNCIA CULTURAL

O povo Huichol é um exemplo de resistência pelo viés da conservação de suas tradições seculares. Sua arte, vestuário e musicalidade traduzem uma forma de viver em plena conexão com a natureza circundante e as potências do cosmos. A saúde de seus indivíduos está ligada à coerência ecológica de uma vida em constante exercício de seus talentos criativos. Atravessaram o imperialismo asteca, a dominação espanhola e o evangelismo moderno.

Contudo, suas batalhas ainda não chegaram ao fim. Algumas comunidades enfrentam agora a invasão de empresas mineradoras, que pretendem realizar escavações em suas terras, ameaçando o equilíbrio do seu ecossistema e pondo em risco suas tradições do uso sacramental do peyote.

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Agradecendo especialmente a Clarice Andreozzi, Manuel Poppe, Tata Rubem, Jorge Rendón, Paulina Lopéz, Beth Moreira, Enio Staub, Maracame Caballo Pinto e Joaquin, Livraria Dom Quixote do CCBB além de todos que participaram da receptiva do grupo. Foram momentos inesquecíveis de forte aprendizado artístico e espiritual.