Geografias do Sonhar – Unidade de Saúde Mental do HUB

Os murais realizados no HUB – Hospital Universitário de Brasília – são, de certa maneira, a continuidade de uma série de projetos artísticos desenvolvidos em parceria com instituições ligadas à promoção e ensino da Saúde no Brasil.
À convite da professora Fátima Sousa, ex-diretora da Faculdade de Saúde da UnB e atual Supervisora do HUB, iniciamos uma campanha de humanização dos espaços do hospital, uma ação em sintonia com as tendências internacionais de criação de murais em ambientes hospitalares.
De fato, a OMS mapeou mais de 3000 estudos acadêmicos confirmando os benefícios da apreciação artística na melhoria dos quadros clínicos, bem como no bem-estar dos funcionários e visitantes. Nesse contexto, é importante mencionar o Jameel Arts & Health Lab, um repositório de iniciativas similares a do HUB, fundamental para nortear minha pesquisa de preparação para o mural.


Pintar em hospitais é um desafio tremendo, tanto do ponto de vista psicológico quanto logístico. É preciso respeitar as dinâmicas dos usuários do SUS, bem como dos profissionais que ali estão, muitas vezes auxiliando pessoas em situações agudas de sofrimento físico e mental, o que exigiu de mim, como artista, uma concentração muito acima da média, ao longo de sessões de pintura de até seis horas consecutivas dentro de uma UTI.

Para darmos início às criações, escolhemos a Unidade de Saúde Mental, atualmente chefiada pela psicóloga Sílvia Barros, com quem estabeleci um diálogo muito proveitoso sobre os locais mais importantes que poderiam ser ocupados com Arte, bem como a temática mais adequada para atender os critérios específicos da Unidade. Optamos então pela paisagem enquanto alternativa rica em plasticidades, sem, no entanto, deixar de tranquilizar o espectador. Nascia ali o conceito das “Geografias do Sonhar”, cuja inspiração primordial reside na árvore enquanto o símbolo máximo de acolhimento, e portanto, símbolo do próprio Hospital.

Imersão
A imersão no cotidiano da Unidade de Saúde Mental do HUB desencadeou em mim uma série de reflexões positivas. Pude, ao longo de três meses de convívio, estabelecer amizades e exercitar a escuta ao lado das pessoas que ali estavam internadas, umas durante poucas semanas de tratamento, outras que testemunharam todo o processo de criação, inclusive chegando a colaborar com idéias que foram agregadas à paisagem.
Concluí que o problema de Saúde Mental diz muito mais à esfera da coletividade do que estamos acostumados a pensar. As causas relativas aos desequilíbrios mentais vão muito além do senso comum, fortemente influenciado por uma visão ultrapassada, de considerar tudo que se refere à problemas mentais como “falta de Deus”, “uso de drogas”, “problemas na família” etc … As causas, infelizmente, tem se multiplicado na sociedade contemporânea, o que aponta para a necessidade de um debate mais amplo sobre o assunto, incluindo todas as faixas etárias e classes sociais.
Também não poderia deixar de afirmar minha admiração pelo SUS, tão nobremente representado pelas equipe de Enfermagem, Psiquiatria, Psicologia e Nutrição, além de toda equipe técnica do HUB, trabalhando na maior parte do tempo longe dos holofotes da mídia, com o único objetivo de restaurar a saúde de pessoas que, muitas vezes, não possuem os mínimos recursos necessários, e mesmo assim são tratados com toda a dignidade. Vivi momentos de puro encanto junto aos voluntários do IBIAA, um grupo de cães especialmente treinados por seus donos para interação em ambiente hospitalar. Afeto em seu máximo grau!




O céu é amarelo
Os murais do HUB também comprovaram o poder das cores para modificar a percepção do espaço e também o próprio comportamento humano. O efeito positivo da pintura “Geografias do Sonhar” foi praticamente imediato, mesmo antes de sua conclusão.
Os usuários da Unidade passaram a freqüentar mais a área de convivência, e conseqüentemente interagiram mais entre si, demonstrando uma maior predisposição ao diálogo e atividades ligadas à Arte. Como passava cinco horas consecutivas com eles, testemunhei diversas vezes a capacidade da pintura em criar uma atmosfera favorável ao processo de cura, desde que com um mínimo de reflexão sobre qual paleta utilizar.
Foi quando decidi pintar o céu de amarelo. Enquanto preenchia as paredes, algumas pessoas me perguntavam: “o céu vai ser amarelo??” E eu respondia: “Sim, aqui na Unidade de Saúde Mental o céu é amarelo”. Não por mero capricho de artista, mas por saber que o amarelo é a cor que estimula a criatividade e o otimismo.


Por fim, a intervenção artística em ambientes hospitalares funcionou como um posicionamento pessoal em relação ao circuito da Arte Contemporânea, na maioria dos casos destinado ao deleite de uma elite intelectual e econômica que movimenta bilhões de Reais em negociações de obras cuja ambiguidade conceitual atinge uma parcela mínima da população brasileira. Uma atitude afirmativa do que acredito ser o papel do artista na sociedade, capaz de reunir ao seu redor as melhores condições de trabalho e a total liberdade de criação, sem precisar se submeter às tendências fugazes do mercado.




















Agradecimentos: Fátima Sousa, Ana Valéria Mendonça, Therése Hoffman, Matheus Henrique, Carlos Eduardo Santos, Carla Targino, Silvia Barros, Jonas Souza e toda equipe da Enfermaria da Unidade de Saúde Mental.
Agradecimentos especiais: Samara Bandeira ( Laboratório ECOS ) e André Carvalho, pelos registros audiovisuais.
