Geografias do Sonhar – Unidade de Saúde Mental do HUB

foto: André Carvalho

Os murais realizados no HUB – Hospital Universitário de Brasília – são, de certa maneira, a continuidade de uma série de projetos artísticos desenvolvidos em parceria com instituições ligadas à promoção e ensino da Saúde no Brasil.

À convite da professora Fátima Sousa, ex-diretora da Faculdade de Saúde da UnB e atual Supervisora do HUB, iniciamos uma campanha de humanização dos espaços do hospital, uma ação em sintonia com as tendências internacionais de criação de murais em ambientes hospitalares.

De fato, a OMS mapeou mais de 3000 estudos acadêmicos confirmando os benefícios da apreciação artística na melhoria dos quadros clínicos, bem como no bem-estar dos funcionários e visitantes. Nesse contexto, é importante mencionar o Jameel Arts & Health Lab, um repositório de iniciativas similares a do HUB, fundamental para nortear minha pesquisa de preparação para o mural.

Pintar em hospitais é um desafio tremendo, tanto do ponto de vista psicológico quanto logístico. É preciso respeitar as dinâmicas dos usuários do SUS, bem como dos profissionais que ali estão, muitas vezes auxiliando pessoas em situações agudas de sofrimento físico e mental, o que exigiu de mim, como artista, uma concentração muito acima da média, ao longo de sessões de pintura de até seis horas consecutivas dentro de uma UTI.

foto: André Carvalho

Para darmos início às criações, escolhemos a Unidade de Saúde Mental, atualmente chefiada pela psicóloga Sílvia Barros, com quem estabeleci um diálogo muito proveitoso sobre os locais mais importantes que poderiam ser ocupados com Arte, bem como a temática mais adequada para atender os critérios específicos da Unidade. Optamos então pela paisagem enquanto alternativa rica em plasticidades, sem, no entanto, deixar de tranquilizar o espectador. Nascia ali o conceito das “Geografias do Sonhar”, cuja inspiração primordial reside na árvore enquanto o símbolo máximo de acolhimento, e portanto, símbolo do próprio Hospital.

foto: André Carvalho

Imersão

A imersão no cotidiano da Unidade de Saúde Mental do HUB desencadeou em mim uma série de reflexões positivas. Pude, ao longo de três meses de convívio, estabelecer amizades e exercitar a escuta ao lado das pessoas que ali estavam internadas, umas durante poucas semanas de tratamento, outras que testemunharam todo o processo de criação, inclusive chegando a colaborar com idéias que foram agregadas à paisagem.

Concluí que o problema de Saúde Mental diz muito mais à esfera da coletividade do que estamos acostumados a pensar. As causas relativas aos desequilíbrios mentais vão muito além do senso comum, fortemente influenciado por uma visão ultrapassada, de considerar tudo que se refere à problemas mentais como “falta de Deus”, “uso de drogas”, “problemas na família” etc … As causas, infelizmente, tem se multiplicado na sociedade contemporânea, o que aponta para a necessidade de um debate mais amplo sobre o assunto, incluindo todas as faixas etárias e classes sociais.  

Também não poderia deixar de afirmar minha admiração pelo SUS, tão nobremente representado pelas equipe de Enfermagem, Psiquiatria, Psicologia e Nutrição, além de toda equipe técnica do HUB, trabalhando na maior parte do tempo longe dos holofotes da mídia, com o único objetivo de restaurar a saúde de pessoas que, muitas vezes, não possuem os mínimos recursos necessários, e mesmo assim são tratados com toda a dignidade. Vivi momentos de puro encanto junto aos voluntários do IBIAA, um grupo de cães especialmente treinados por seus donos para interação em ambiente hospitalar. Afeto em seu máximo grau!

O céu é amarelo

Os murais do HUB também comprovaram o poder das cores para modificar a percepção do espaço e também o próprio comportamento humano. O efeito positivo da pintura “Geografias do Sonhar” foi praticamente imediato, mesmo antes de sua conclusão.

Os usuários da Unidade passaram a freqüentar mais a área de convivência, e conseqüentemente interagiram mais entre si, demonstrando uma maior predisposição ao diálogo e atividades ligadas à Arte. Como passava cinco horas consecutivas com eles, testemunhei diversas vezes a capacidade da pintura em criar uma atmosfera favorável ao processo de cura, desde que com um mínimo de reflexão sobre qual paleta utilizar.

Foi quando decidi pintar o céu de amarelo. Enquanto preenchia as paredes, algumas pessoas me perguntavam: “o céu vai ser amarelo??” E eu respondia: “Sim, aqui na Unidade de Saúde Mental o céu é amarelo”. Não por mero capricho de artista, mas por saber que o amarelo é a cor que estimula a criatividade e o otimismo.

Por fim, a intervenção artística em ambientes hospitalares funcionou como um posicionamento pessoal em relação ao circuito da Arte Contemporânea, na maioria dos casos destinado ao deleite de uma elite intelectual e econômica que movimenta bilhões de Reais em negociações de obras cuja ambiguidade conceitual atinge uma parcela mínima da população brasileira. Uma atitude afirmativa do que acredito ser o papel do artista na sociedade, capaz de reunir ao seu redor as melhores condições de trabalho e a total liberdade de criação, sem precisar se submeter às tendências fugazes do mercado.

Parte da Equipe de Saúde Mental do HUB

Agradecimentos: Fátima Sousa, Ana Valéria Mendonça, Therése Hoffman, Matheus Henrique, Carlos Eduardo Santos, Carla Targino, Silvia Barros, Jonas Souza e toda equipe da Enfermaria da Unidade de Saúde Mental.

Agradecimentos especiais: Samara Bandeira ( Laboratório ECOS ) e André Carvalho, pelos registros audiovisuais.

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