Simbolismos Secretos na Arte de Carlos Pimentel


A mostra coletiva CUBA+10, em cartaz no Instituto Cervantes de Brasília, marca os 10 anos da participação brasiliense na XII Bienal de Havana, em 2015. E conta com um ilustre convidado: o cubano Carlos Pimentel, desenhista, gravurista e escultor com uma vasta pesquisa em torno dos simbolismos secretos da Irmandade Abakuá, além de ser um dos responsáveis pelo projeto de restauração do imenso patrimônio escultórico da capital cubana, famosa pelas suas estátuas monumentais de mármore e bronze.
Pimentel foi uma pessoa fundamental para o bom seguimento da nossa exposição em Cuba, tendo auxiliado o grupo desde a fabricação sob medida dos chassis que esticaram as pinturas nas paredes, fazendo a ponte entre nossa equipe de produção e a diretoria do Museu Municipal de Guanabacoa, além de nos apresentar para diversos artistas locais. Desde então, além de um amigo, também se tornou um porto seguro para muitos brasileiros que visitaram e visitarão a capital cubana.
Corpo-Segredo

Seu trabalho como desenhista e gravador é caracterizado pela criação de figuras que parecem emergir de um território limítrofe entre o biológico e o símbólico. Não são exatamente pessoas, mas presenças que se insinuam como enigmas.
Na obra de Pimentel, o corpo se mostra oco, habitado por entidades invisíveis. São cobertos por mantos feitos de escamas, sugerindo uma existência híbrida, de algo que se move, mas nunca se deixa ver por inteiro. Seres sem rosto, esvaziados de identidade, como se fossem apenas receptáculo do mito.
Esta mitologia, celebrada pictóricamente por Carlos Pimentel, gira em torno de duas entidades : Sikan, a princesa Carabali, e Tanze, o peixe falante, que junto ao Ireme – dançarino mascarado das cerimônias Abakuá – constituem a trindade iconográfica desta misteriosa cultura ancestral, cuja ritualística consegue se manter secreta mesmo com o passar dos séculos.



Confira a entrevista com Carlos Pimentel:
Pimentel, você esteve presente durante a montagem de Acercamientos, em 2015. Como se recorda daquele momento, estando em contato com o grupo brasileiro? O que mais chamou sua atenção, e qual a impressão deixada no público cubano que prestigiou nossa exposição?

Em 2015, tive a oportunidade de participar do projeto “Acercamientos”, uma coletiva de artistas brasilienses na importante Bienal de Havana. A exposição foi um verdadeiro presente para os sentidos, não só pela diversidade visual e conceitual das obras expostas, mas sobretudo pela alegria e a companheirismo dos brasileiros, muito similar ao estilo de ser do povo cubano.
A mostra coletiva no Museu Municipal de Guanabacoa foi muito além da simples contemplação de quadros e esculturas vindas de outro país. As propostas artísticas do grupo brasileiro, por vezes, nos pareceu tão familiar como se vocês fossem cubanos retornando de uma longa viagem. Essa familiaridade proporcionou uma compreensão maior da inter-relação entre nossas culturas tão semelhantes por um lado, tão distintas por outro.
O público de Guanabacoa reagiu muito positivamente a essa exposição que colocou o município no mapa da Bienal. Estiveram presentes na mostra figuras importantes da cultura cubana como nosso músico, compositor e maestro Leo Brauer e a diretora da Galeria Casa de las Américas, Silvia Yañez. A abertura foi uma foi uma verdadeira festa, com especial destaque para diversos grupos foclóricos e agremiações espirituais representantes da Santeria cubana, que acabaram temperando a exposição com um Axé especial.
Até hoje, os vestígios desse momento memorável podem ser vistos no município, como a escultura de Darlan Rosa, o mural de Botelho, e os quadros que foram doados por Josafá Neves, Clarice Gonçalves e Adriana Marques.

Um aspecto de Guanabacoa que mais me surpreendeu foi a forte influência da religiosidade afro-latina no cotidiano da cidade, com danças para Orixás em plena luz do dia, como se não houvesse muita diferença entre sagrado e profano. Pode comentar um pouco a respeito disso?
Bem, Tiago, Guanabacoa é um lugar muito importante em Cuba por ser o berço de grandes músicos como Rita Montaner e Bola de Neve, além de ter sido o bairro protagonista da resistência à invasão de Havana pelos ingleses, em 1762. É também um bairro muito conhecido pela forte tradição espiritual de origem africana, lar de muitos babalorixás e tatas extremamente respeitados não só em Cuba, mas em todo o Caribe e América Central, como Adeshina Remigio Herrera, o pioneiro do Ifá no Novo Mundo.
Juntamente com a cidade de Regla, Guanabacoa se converteu em refúgio onde diferentes religiões de origem africana se reorganizaram, conservando seus fundamentos praticamente intactos. Em Guanabacoa, desde o século XVI existem Cabildos dedicados a conservar os costumes das etnias vindas para Cuba na condição de escravos. ( Cabildo = associações étnicas africanas com relativa independência do pode colonial. Os Cabildos podiam reunir recursos para ajudar seus membros em tempo de doença ou morte, e também tinham uma finalidade religiosa, pois eram o local onde os trabalhadores escravizados podiam consultar os seus antepassados e divindades.)
De fato, Guanabacoa e Regla tornaram-se cidades-templo, onde as tradições de origem africana são celebradas na sua integralidade. Esses bairros são tão importantes para os cubanos que a frase mais comum entre nós é “se você tem um problema, vá para Guanabacoa”.

Seu trabalho como desenhista, escultor e gravador também carrega uma forte imanência mística, te colocando em sintonia com artistas como Manuel Mendive, Belkys Ayon e Wilfredo Lam. Poderia falar um pouco desses artistas para o público brasileiro?

Para mim, Wilfredo Lam demostrou toda riqueza mística do povo cubano em sua eterna busca por suas origens. (Bom lembrar que Lam era descendente tanto de africanos como de chineses, em uma miscigenação rara, mas que o contexto geopolítico da Cuba do século XIX acabou forjando.) Suas pinturas são a pura expressão do que chamamos de EL MONTE, ou seja, o território sagrado onde a magia da natureza se manifesta. Para um europeu, Wilfredo Lam pode parecer um pintor surrealista, mas o que ele fez foi simplesmente celebrar pictoricamente o imenso caldeirão cultural cubano.
Manuel Mendive é o pintor e escultor que melhor nos revela a dualidade dos mitos e lendas africanas. Homem e mulher, Deus e Natureza surgem entrelaçados em uma esfera mística, mas que também é uma esfera terrena, palpável. Ele tem uma obra fabulosa, que iniciou com a série de navios negreiros e continua até suas esculturas mais recentes inspiradas em artefatos sagrados dos Orixás, além de suas célebres performances com dezenas de pessoas desfilando com o corpo pintado pelas ruas de Havana.
Chegamos então a Belkis Ayón, a ousada Belkis, mestre da Colagrafia, criadora de uma visualidade onde as mulheres adentram no universo proibido do mundo Abakuá, e se tornam, tal e qual o mito de Sikan, reveladora de seus segredos. Sua obra, extremamente meticulosa, conseguiu retratar aspectos da sociedade Abakuá que são misteriosos até mesmo para os membros da Ordem. Entre nós, Belkis é admirada como professora, como artista e como uma mulher que se recusou a aceitar o silêncio da pele Sikan.

Seus desenhos e gravura estão sempre articulando os mesmos símbolos: peixes, olhos, seios, cabeças cobertas por panos, corpos feito de folhas…as figuras evocam algo iniciático, misterioso, como se você desenhasse entidades de outra dimensão. O que essa simbologia representa para você?
A cultura cubana é plena de misturas, como dizemos em Cuba, um “Ajiaco” (ensopado feito de diversos ingredientes cozidos na mesma panela). A noção de “cubania” é constituída de muitas referências e identidade amalgamadas, inclusive em seu aspecto espiritual. A Irmandade Abakuá também faz parte desse processo.
O proibido, o secreto, o oculto sempre fascinaram. E é por meio de certos símbolos e até mesmo da própria História que eu encontro inspiração para criar. Para mim, El Monte é uma potência mágica capaz de nos observar e manter conosco um diálogo íntimo sobre a imensidão e intensidade de seus mistérios. Sob essa perspectiva, todos nós somos Iniciados, então passamos a compreender a memória e os segredos do Monte. Em meu trabalho artístico, busco decodificar alguns significados da Irmandade Abakuá para a sociedade contemporânea, sem nunca despojá-la de suas raízes. Há, na cosmovisão Abakuá, elementos que abrangem vida e morte, humano e animal, parto e sacrifício, terra e água. De certa maneira, busco fazer uma síntese desse dinamismo através dos meus desenhos e gravuras. Em Novembro próximo, abrirei uma nova exposição, com a continuidade dessa pesquisa tão rica.

A irmandade Abakuá é um dos grandes tesouros culturais cubanos. Você, como um estudioso dessa Ordem, poderia traçar uma evolução dos Abakuás ao longo dos séculos? Qual é a importância dessa irmandade nos dias de hoje?
A sociedade Abakuá é parte indiscutível da nossa História, inclusive tendo participação ativa nas lutas pela independência cubana. O cenário atual é de uma Irmandade que busca manter seus preceitos espirituais em meio a crescente notoriedade internacional. Hoje, existem cubanos que migram para outros países e tentam abrir casas de rito Abakuá como forma de conservar suas origens, apesar da resistência da irmandade em permitir que seus segredos saiam de Cuba.

Havana é uma cidade famosa não apenas por seus excelentes museus de arte, mas também por seus centros culturais comunitários, dedicados a promover a arte pública, transformando bairros em galerias a céu aberto. Você poderia nos contar um pouco sobre a cena artística de Havana e o que, na sua opinião, torna a cidade especial?
Havana é uma cidade sem limites em termos de expressões artísticas. A partir do momento em que você caminha por suas ruas e vê a arquitetura cubana, tão rica de referenciais históricos e estilos como Art Decó, Mudejar, Art Nouveau e Barroco e Neoclássico, muitas vezes resinificados por necessidades de manutenção que flertam com o improviso e a criatividade popular. Todas as tradições do país se reúnem em Havana. Em todos bairros podemos encontrar centros culturais, escolas de arte, galerias oficiais e não oficiais.
Mas se vamos falar de cultura, precisamos primeiro falar da transformação que a campanha de alfabetização trouxe consigo após o triunfo da Revolução. Para mim, aquele que lê e escreve possui as ferramentas criativas mais importantes.
Galeria de trabalhos de Carlos Pimentel











