Van Gogh Arlesiano: revisitando o ano mais produtivo da trajetória do pintor holandês

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Os primeiros meses do pintor em Arles são marcados pela temática da ponte e das árvores em flor. Simbolicamente, podemos considerar a fixação da Van Gogh pela ponte como uma espécie de passagem para uma nova etapa de sua vida, uma transição profundamente transformadora de seu modo de agir no mundo, mais conectado com sua Arte através da construção de uma rotina quase utópica onde não haveria distinção entre viver e criar. A solidez das pontes pintadas por Van Gogh durante seu primeiro mês em Arles é análoga a solidez de suas convicções a respeito do futuro. Talvez ali, no frescor da Primavera, o mestre holandês tenha antevisto intuitivamente a robustez de sua obra, expressando toda sua potência na primeira de suas muitas pinturas célebres deste período, “A ponte Langlois com lavadeiras”.

Sua dedicação principal, entretanto, foram as árvores em flor. Pessegueiros e Ameixeiras se tornariam o tema central de sua produção, a porta pela qual Van Gogh adentrou afim de mesclar sua alma à Natureza. Ao todo, o pintor realizou quatorze pinturas de pomares, ainda um tanto atrelado às técnicas Impressionistas que posteriormente viria a superar. Esse conjunto de paisagens, a meu ver, funcionou como um ensaio, um ajuste na sua paleta de cores, experimentações em torno do enquadramento, primeira tentativa de forjar sua mitologia particular, fortemente permeada pelo imaginário judaico-cristão, posto que algumas de suas árvores em flor se assemelham à Sarça Ardente do Êxodo hebreu conduzido por Moisés.

Vincent, o profeta da arte moderna, havia chegado em sua Terra Prometida.

Van Gogh também pintou quatro telas dentro de sua recém-alugada casa-ateliê, unidas pelas tonalidades claras e uma evidente sensação de ordem e harmonia tanto interna como externamente. Vincent contava com tudo o que precisava para lançar-se na aventura de sua vida. Comida, conforto, o apoio de seu irmão Théo, e belas paisagens.

O destaque é o “Ramo de Amendoeira Florescendo em um Copo”, que pode ser considerado um “auto-retrato” cifrado em natureza-morta. Aqueles botões prestes a se abrirem, distantes de seu lugar de origem, é uma metáfora perfeita do estado de espírito do artista naquelas primeiras semanas em Arles.

Também neste período, o pintor realizou outras três paisagens e um casal caminhando de costas.

Colheita em La Crau – Junho 1888

A força simbólica do quadro do Semeador merece uma atenção especial. Tendo Van Gogh atravessado o período da floração dos pessegueiros, e em seguida enfrentado o ardor da colheita do trigo sob o sol quente, O Semeador arremata esse período, como um signo de fé no futuro.

A ambição de registrar as mudanças sazonais estava indo de vento em popa. Arles lhe oferecia inúmeros motivos para pintar, e agora, tal e qual o camponês, Van Gogh semearia uma nova série de quadros em um novo ciclo de envolvimento com a paisagem e suas mudanças atmosféricas que influenciavam na escolha das cores de sua paleta.

A meta, segundo suas cartas ao irmão, seria “atacar os vinhedos”, e para tal o pintor contaria com uma paleta de verdes e vermelhos, para ele, cores que evocavam paixões e vícios ligados ao vinho.

Não satisfeito com os excelentes resultados obtidos na série de Trigais, Van Gogh ainda produziu, ao longo de Maio e Junho, cerca de onze paisagens com temáticas variadas.

Em finais de Junho, o holandês decide fazer uma viagem a pé até o litoral, seguindo o caminho de peregrinação dos ciganos na romaria para Santa Sara Kali. O percurso, de mais de 200 km, lhe rendeu um série memoráveis de desenhos que se transformariam em pinturas com temática de barcos e vilarejos, dentre as quais estão algumas das mais conhecidas do público. Sobre essa aventura, Van Gogh escreve ao irmão:

“Passei uma noite à beira do mar na praia deserta. Não foi alegre, mas tampouco foi triste: foi belo. O céu de um azul profundo estava salpicado por nuvens de um azul ainda mais profundo que o azul fundamental de um cobalto intenso, e por outras de um azul mais claro, como a alvura azulada de vias lácteas. No fundo azul as estrelas cintilavam claras, esverdeadas, amarelas,
brancas, rosas, mais claras, adiamantadas mais como pedras preciosas, que para nós – mesmo em Paris – seria o caso de dizer: opalas, esmeraldas, lápis-lazúli, rubis, safiras. O mar de um ultramarino muito profundo – a praia, pareceu-me de um tom violeta e ruço pálido, com moitas sobre a duna (de cinco metros de altura, a duna), moitas azul da Prússia…”

Para finalizar esse bimestre tão produtivo, o pintor ainda produziu mais seis telas, quatro naturezas-mortas e dois retratos. O fato é que a inspiração frenética de Van Gogh tinha como motivação principal uma espécie de culpa por depender financeiramente do irmão Théo. Para ele, era importante honrar cada centavo que lhe era dado, e produzir o suficiente para que Théo pudesse um dia lucrar com suas pinturas. Nestes primeiros meses em Arles, Van Gogh tinha plena convicção que seus quadros seriam vendidos. Ele os enviava regularmente para Théo, junto com suas cartas , e garantia que até o fim daquele ano, seria capaz de recompensar a benevolência do irmão.

A sobrecarga de trabalho era uma forma de garantir que sua pobreza material não era fruto da preguiça. Gradualmente, Van Gogh se entregava a uma vida de excessos, no que se referia a uma rotina austera e comedida. Se alimentava mal, trabalhava ininterruptamente tanto ao ar livre quanto no ateliê, gastava mais com tintas que com comida, e ainda fracionava a mesada do irmão com álcool, tabaco e prostitutas, hábitos que certamente lhes causava um conflito existencial entre sua formação cristã e o estilo dandesco dos pintores da época.

Este paradoxo entre o “Van Gogh monástico” e o “Van Gogh insolente” marcaria profundamente a trajetória do artista, tendo inclusive influenciado alguns de seus quadros, como por exemplo, os “Zuavos” – soldados argelinos em serviço no território francês e que em Arles, eram contratados como segurança dos bordéis, frequentemente submetidos a brigas com clientes bêbados e até mesmo vítima de assassinatos. O pintor não escolheu à toa retratá-los. O Zuavo era como um espelho dos seus próprios vícios e virtudes. Um estrangeiro, como Van Gogh também era, e portanto alvo dos mais variados estigmas e incompreensões. Mas também um rufião sem escrúpulos, ignóbil vigilante de alcoviteiros, eternizado nas pinturas do mestre holandês não apenas pela beleza de seus trajes ou rudeza no semblante, e sim por expressar secretamente o drama daquele que se via em uma encruzilhada entre a placidez doméstica de suas naturezas-mortas em oposição aos instintos mais sombrios que posteriormente lhes custariam muito caro.

Julho e Agosto foram meses que Van Gogh começou a sentir com mais frequência a sobrecarga de seu estilo de vida. Os quadros enviados a Théo não vendiam, as amizades com os arlesianos eram raras, e a solidão começava a lhe causar enfado. Além do que, o verão na Provence favorecia a proliferação de mosquitos e outros insetos atraídos pelos odores da tinta ao ar livre, prejudicando o rendimento de suas incursões pelo campo. O vento forte também passara a se tornar uma adversidade constante. Por mais de uma vez, em suas cartas ao irmão, Van Gogh admitia que a impetuosidade presente nas suas pinceladas era consequência da ação dos “mistrais”, que saculejavam seu cavalete enquanto ele pintava. Foi quando ele passou a insistir na vinda de Paul Gauguin a Arles, outro pós-impressionista de relevância na História da Arte, para que eles unissem suas forças em torno de um propósito comum, o advento de uma nova arte.

Sua condição de eremita se faz evidente no auto-retrato no meio do nada, sob o sol a pino, carregando os apetrechos de pintura, na companhia de uma densa e obscura sombra, única testemunha de seu empenho. A ideia de retratar as mudanças de cor desencadeadas pelo clima se apresentava uma tarefa difícil, e o holandês, após se envolver com os pomares e os trigais, via-se perdido, tentando captar algo na atmosfera de Arles que o entusiasmasse por igual.  “Os pomares representavam o rosa e o branco, os trigais o amarelo, as marinas o azul. Talvez agora eu vá procurar um pouco os verdes.” era o que ele escrevia ao irmão, referindo-se aos vinhedos. Mas por algum motivo, a série de vinhedos nunca aconteceu.

Há duas pinturas especiais deste período, de um camponês e de um carteiro que cuidava de sua correspondência para Theo. Os retratos de Patience Escalier e Joseph Roulin representam, respectivamente, o campo e a cidade para um Vincent cada vez mais solitário, cujo vínculo com o céu, as árvores e o horizonte era muito maior do que com as pessoas. Van Gogh nunca foi um perito em retratos – a não ser dele próprio – mas esses dois exemplos fogem à regra, talvez por serem os únicos amigos arlesianos que o pintor fizera até ali. O camponês acabou se aborrecendo, pois queria o quadro para si. Já o carteiro, passaria a ser um modelo constante, inclusive não só ele, mas toda a sua família.

Aliás, é interessante frisar a importância do carteiro Joseph Roullin no bem-estar de Van Gogh durante o ano em Arles. Além de ter sido o único modelo regular para as experimentações do pintor no campo do retrato, Roullin também garantia que as telas fossem devidamente despachadas a Paris, o que faz do carteiro uma espécie de extensão de sua vida e zelador primeiro de sua obra.  

E foi entre Julho e Agosto que Van Gogh pintou um dos seus temas mais célebres: O vaso de girassóis. Talvez cansado das excursões ao ar livre após quatro meses ininterruptos de diligente produção em torno dos pomares e trigais, Vincent decidiu então trazer a natureza para dentro de  casa, e os girassóis não poderiam ser mais adequados para expressar suas ideias. Por murcharem em apenas um dia, os girassóis exigem rapidez na execução, velocidade nas pinceladas, e uma dedicação extrema até que o conjunto do buquê estivesse inteiramente harmonizado. Sem ter consciência disso, Van Gogh fundara um método de criar obras-primas em apenas uma sessão de trabalho. Os girassóis foram, portanto, um dogma daquilo que o holandês considerava ser uma nova postura diante das telas, e o tempo veio a confirmar que ele estava certíssimo.

Porém nem tudo eram flores na vida do artista. Ainda que sua rotina fosse modesta, os gastos com tinta eram imensos, devido a sua inovadora técnica de empastamento das superfícies. Ninguém, até então, ousara espremer tubos inteiros de cor pura em uma tela, e Van Gogh abusava dos materiais na ânsia de superar os postulados impressionistas. A conta de sua audácia, obviamente, era paga pelo fiel escudeiro Théo. Em suas cartas, há um pedido de remessa de tubos de tinta óleo a serem compradas em Paris:

20 branco de prata, tubos grandes,
10 idem branco de zinco,
15 verde-Véronèse, tubos duplos,
10 amarelo cromo limão,
10 amarelo cromo (nº dois),
3 vermelhão,
3 amarelo cromo nº três,
6 laca gerânio, tubos pequenos
12 laca gerânio comum,
2 laca carmim, recentemente moídos, se estiverem oleosos eu os devolverei.
4 azul da Prússia, tubos pequenos,
4 cinabre verde muito claro, pequenos tubos,
2 mina laranja, tubos pequenos,
6 verde-esmeralda, tubos pequenos

Curioso pensar que essa lista de tintas seria a matéria-prima para eternizar um dos maiores nomes da pintura moderna. E espantoso saber que seus girassóis alçariam a cifra de dezenas de milhões de dólares no mercado internacional, um século depois.

Evidente que um aporte tão exagerado de materiais soava como um capricho para o irmão Théo, mesmo com toda a sua prestatividade. Théo chegava a contestar os pedidos mirabolantes do pintor, mas por fim, acabava cedendo, pois Van Gogh, além de um gênio dos pincéis, também era sagaz a arte da persuasão. Com frequência, ele apelava para uma dissimulada chantagem emocional, vitimizando-se nas cartas enviadas à Paris, sempre pedindo mais dinheiro ao seu mecenas. E não pedia só para ele, mas para Gauguin, que a essa altura vivia em estado de penúria, e passava a considerar a hipótese de se instalar em Arles junto com o amigo holandês.

“Se você for bondoso o bastante para dar-nos, a Gauguin e a mim, as condições de nos instalarmos aqui, só posso lhe dizer que se não aproveitarmos esta ocasião para nos livrarmos dos senhorios, estaremos jogando fora todo o seu dinheiro e toda nossa possibilidade de resistir ao cerco da miséria..“

“Também posso lhe garantir que se por acaso você me enviasse um pouco mais de dinheiro, isto faria bem para os quadros, mas não para mim. Só me resta a escolha entre ser um bom pintor ou um mau pintor. Escolhi a primeira alternativa. Mas as necessidades da pintura são como as de uma amante ruinosa, não se consegue fazer nada sem dinheiro, e nunca se tem o suficiente.“

Foram meses confusos para o artista. Van Gogh tentava dar seguimento ao seu plano de catalogar as mudanças climáticas de Arles ao longo do ano, mas seu espírito irrequieto parecia não se fixar em nada permanentemente. O pintor flertava com temas diversos, mas não concluía nada tão expressivo quanto o que tinha feito no primeiro semestre. Barcos no crepúsculo, mesas de restaurante, campos floridos… Vincent tentava se reapaixonar pelo mundo, mas não superava um mero par de telas a cada temática. A verdade é que ele nunca mais pintaria um conjunto focado no mesmo motivo, como fizera na ocasião dos primeiros meses em Arles.

Ainda entre Julho e Agosto, ele pintaria mais sete paisagens e quatro retratos, na sua busca incansável por algum senso de valor. Pintar, para Van Gogh, era uma espécie de expiação, um ritual diário que restaurava sua esperança de um dia ver seu sonho se tornar real, e foi justamente por perseverar por tanto tempo e sob as condições mais adversas, que sua obra se tornou expressão inquestionável da criatividade humana.

Não havia mais fronteiras entre vida e arte, era apenas ele, as tintas, as telas, as cartas ao irmão e o sonho de fundar uma comunidade de pintores fora do eixo parisiense. Ele prometia fazer pomares em flor ainda mais belos para o próximo ano, considerando tudo o que fizera até ali como meros “estudos”.

Setembro e Outubro foram, na minha opinião, os meses mais espetaculares de Van Gogh em Arles, ocasião em que ele produziu a maior quantidade de obras emblemáticas de seu vasto acervo. Graças a uma considerável herança de um tio que falecera, o pintor pode enfim se mudar para um ateliê mais espaçoso, comprou mobílias e fez algumas reformas visando seu próprio conforto, tendo inclusive mandado pintar o edifício de amarelo, para em seguida eternizá-lo em um quadro.

Imbuído pelo otimismo, Van Gogh decide armar seu cavalete no centro de Arles, onde pintou seu célebre Café da Praça Lamartine, uma visão das mesinhas externas, e outra cena que se passa no interior do estabelecimento, com uma mesa de sinuca. Ambos quadros, famosíssimos mundialmente, fazem parte de um conjunto de outras duas telas também muito conhecidas: Seu auto-retrato careca e a Noite Estrelada sobre o Rio Ródano, uma espécie de primeira versão daquela que seria a noite estrelada pintada anos depois.

Esses quatro quadros, pintados sob um mesmo ímpeto, são como peças de um quebra-cabeça para compreendermos a cosmovisão vangoghiana do mundo.  Idealmente falando, elas jamais deveriam ter sido separadas uma da outra.

Arrematando a maré de boa-ventura, Gauguin estava prestes a chegar em Arles, para juntos iniciarem a tão sonhada missão de viver em uma comunidade de pintores. Para tal, Vincent se dedicou aos mínimos detalhes, das cadeiras aos quadros que adornariam o aposento de seu ilustre hóspede. Era uma espécie de santuário as simplicidade, tudo muito digno e austero, sem luxos que viessem a interferir no único propósito do ateliê: pintar, pintar e pintar. Gauguin seria o primeiro de muitos que logo também prestigiariam os atrativos que a Provença era capaz de oferecer aos pintores da nova geração. Para impressionar o amigo, Van Gogh pintou duas paisagens especiais, batizadas de” O Jardim do Poeta”, destinadas ao quarto de Gauguin. Nota-se, nestas duas pinturas, um empenho maior na composição, como se o holandês quisesse transmitir segurança ao recém-chegado.

Há também três pinturas do parque central de Arles, um sinal de reconciliação com a cidade após alguns meses de incertezas, Arles viria a se tornar o cenário de sua utopia artística, e muito em breve, seria a segunda morada de pintores vindos de toda a França, e talvez até de outros países, fascinados pela claridade bucólica da Provença.

Nota-se, em algumas obras deste período, um certo primor pelas temáticas mais urbanas, de carruagens, viadutos e escadarias extremamente complexas, com perspectivas bem estudadas, algo que o holandês nunca se preocupara até então. Van Gogh parecia querer impressionar Gauguin, provando suas habilidades de composição.

Ao lado do amigo – há que conteste que este termo possa ser aplicado à Gauguin – Van Gogh permitiu ser influenciado pelas concepções artísticas do recém-chegado. Sua paleta tornou-se mais difusa. As cores deixaram de se mesclar. Os empastamentos deram lugar a pinceladas ralas, típicas de Gauguin, um pintor acostumado a economizar ao máximo suas tintas devido à precariedade de suas finanças.

Esses três quadros da alameda do cemitério evidenciam a súbita transformação de Van Gogh na companhia de seu hóspede. O elemento solar, a abundância de texturas e a riqueza cromática desapareceram. As árvores que ladeiam os jazigos sugerem , à luz da atualidade, um certo bloqueio, quase uma cerca separando o holandês do mundo que ele tanto amava pintar.

Mas talvez seja o quadro ” Jardim de Etten” onde se perceba com mais força o impacto da temporada de Gauguin em Arles. Trata-se de uma pintura FICCIONAL, feita de memória. Uma nostalgia, por assim dizer, de seus anos na terra natal holandesa. Gauguin convencera Van Gogh a virar as costas para o real, convidando-o a dar vazão ao elemento fantasioso, em composições imaginárias obtidas pela combinação calculada de esboços. O oposto que Vincent estava fazendo desde que chegara na Provença.

Este é um dado crucial para entendermos o que de fato desencadeou a briga entre os dois pintores, ocorrida semanas depois.

Outro rastro importante dessa mudança são os dois Semeadores pintados durante esse bimestre.

O primeiro se fundamenta em uma paleta realista, cujo fulgor do amarelo é obtido mediante um jogo de escalas cromáticas que ia do marrom ao ocre. Através da variação dessas cores, Van Gogh criava campos de cor pura que explodiam ao olhar, habilidade que o eternizou como um pintor incomparável a nenhum outro antes dele.

Já o segundo parece ter sido pintado pelo próprio Gauguin. A cor não cria nenhuma profundidade, restringindo-se à superfície plana, sem diálogo entre os elementos da paisagem. Não há integração entre os matizes, nem sobreposição de cores opostas, em uma abordagem primitivista da pintura.

A produção de Setembro/Outubro esconde uma pedra preciosa do acervo de Van Gogh. Um raro Vinhedo, que em tese seria sua próxima série de paisagens depois dos pomares e os campos de trigo, se acaso o pintor tivesse conseguido manter-se lúcido, livre dos influxos nefastos de Gauguin. Talvez no futuro próximo, algum colecionador milionário perceba a grandeza deste ultimo fragmento do sonho primordial do mestre holandês durante o período em Arles.

Outras quatro paisagens pintadas entre Setembro e Outubro

Novembro e Dezembro foram meses de grande infortúnio para Van Gogh, marcados pelo episódio de sua briga com Gauguin seguido de um surto psicótico que cuminaria na auto-mutilação de sua orelha, seguida de sua primeira internação.

Não serão capítulos felizes daqui para frente. A beleza de sua história, definitivamente, ocorreu nos meses anteriores, quando o fantasma da loucura ainda não tinha escapado de sua alma, e o pintor sonhava com trigais e comunidades de artistas abençoados pelo sol.

Ao cortar sua orelha, Van Gogh selou para si mesmo o estigma de desequilibrado, e até hoje, diversos veículos de comunicação tratam de reduzi-lo a uma figura atormentada, que ouvia vozes do além, como se isso dotasse suas telas de uma espécie de fetiche perverso bem típico do sistema das artes. Ou ao contrário, ressaltam o estereótipo do pintor bon-vivant, que pintava por puro amor, cuja genialidade brotava de um “dom” divino.

São dois mitos bastante difundidos em uma leitura superficial da obra de algum artista: de um lado, suas excentricidades, do outro, seu talento nato. O processo, a inteligência e as circunstâncias que sua produção foi submetida são questões complexas demais, e muitas vezes destoam dos interesses do mercado consumidor, quando se trata de pasteurizar a produção artística de alguém a agendas, canecas, papel de parede, livros decorativos, bijouterias, camisetas etc etc. Nesse contexto, Van Gogh segue vítima de sua própria história.

Entre as obras produzidas neste período, a única considerada emblemática é a sua célebre cadeira amarela, e talvez poucos saibam que a tal cadeirinha de palha esteja encadeada com outras pinturas, como a cadeira do amigo Gauguin. À essa altura, não é difícil presumir porque a cadeira de Van Gogh foi pintada com azuis e amarelos – suas cores prediletas – e a de Gauguin foi pintada com verdes e vermelhos, as cores dos vícios e paixões, segundo a paleta do mestre holandês.

Há também dois retratos, pintados de forma similar, formando dois pares, cadeiras e cabeças, sendo que Gauguin foi pintado de costas, e eu não creio que tenha sido à toa. Van Gogh sentia-se preterido, e frequentemente sofria ataques do colega, que subestimava as técnicas do anfitrião, fazendo pouco caso de suas teses, reclamando de Arles, e ameaçando ir embora da cidade a toda hora.

O fato é que Paul Gauguin foi persuadido por Théo, irmão de Van Gogh, a passar um tempo em Arles, devido à alguns quadros vendidos em Paris. Era uma troca de favores, digamos assim. Théo negociaria suas pinturas e Gauguin serviria de cobaia daquela ideia fixa de Vincent sobre a tal comunidade de artistas.

Mas para Gauguin, a temporada em Arles seria como umas férias de sua vida atribulada, um descanso dos excessos boêmios e promíscuos que ele experimentara tanto no Taiti quanto na Bretanha. O francês não imaginava, contudo, o quão importante era para Van Gogh que sua estadia em Arles frutificasse na exata medida de seu entusiasmo. Nesse ponto, não há como refutar. Van Gogh PROJETOU SUA REDENÇÃO  na figura do amigo Gauguin, e este, por sua vez, não se viu na obrigação de corresponder às expectativas do holandês.

Era o início da maior treta da História da Arte, só comparável à porrada entre Michelângelo e o Papa Julio II, durante a criação da Capela Sistina.

TRETA COM GAUGUIN – ORELHA – ESTIGMA DE LOUCO -PETIÇÃO PÚBLICA – ISOLAMENTO DENTRO DO ISOLAMENTO – GAUGUIN PARTE – VAN GOGH RETRATOS

PARADOXO – CAFÉ-SENHORA

VINHEDOS – O UNICO – O ULTIMO PULSAR DE SUA AMBIÇÃO INICIAL – SEMEADOR CREPUSCULAR – ECLESIASTES

ARLES NÃO HAVIA ACOLHIDO SEU SONHO – DEPRIMIDO – SOLITÁRIO – TINHA FRACASSADO – PERDIDO A VELOCIDADE- A LIBERDADE – A NATUREZA-

REPETIÇÃO DO MESMOS TEMAS – GIRASSÓIS- TEMPO AUREO – MULHER – JUDICIOSA – FIGURA MATERNA- SEGURANÇA

OBRA MAIS IGNORADA – METÁFOR

NATUREZAS-MORTAS- TUDO QUE LHE RESTARA NA VIDA

PERDEU A COR – CABISBAIXO

POMAR – AQUELE QUE PROMETERA PINTAR MELHORES NO PRÓXIMO ANO – DISTANTES

Os pintores – para falar só deles –, estando mortos e enterrados, falam à geração seguinte ou a várias gerações seguintes por suas obras.Isto é tudo, ou há ainda algo mais? Na vida de um pintor, talvez a morte não seja o mais difícil. Se tomamos o trem para ir a Tarascon ou a Rouen, tomamos a morte para ir a uma estrela.O que certamente é verdadeiro neste raciocínio, é que estando na vida nós não podemos ir a uma estrela, assim como estando mortos não podemos tomar o trem. Enfim, não me parece impossível que a cólera, as pedras, a tísica, o câncer, sejam meios de locomoção celeste, assim como os barcos a vapor, os ônibus e a estrada de ferro são meios
terrestres.

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